sexta-feira, 6 de junho de 2008

Relato de um encontro de esquerdas reformistas

O teatro da trindade estava cheio, nem me deixaram entrar. Mandaram-me para o espaço Chiado, onde havia um ecrã gigante a transmitir tudo. Impressionante a quantidade de cabelos brancos na plateia, Helena Roseta de trombas e a não dançar inclusivé. A pita-tonta da Sic Notícias tentava entrevistar jovens sobre "qual é o problema da esquerda?" para o directo da praxe. O lugar era extremamente luxuoso e estava cheio também. A voz da Xana ouvia-se bem. Demasiado bem, cada gritinho desafinado, cada plágio descarado das linhas de The Cure. Especialmente bem porque o resto da banda não se ouvia, o que terá feito com que aquela espera para guardar o lugar para ouvir o Manuel Alegre a dizer o que está sempre a dizer se tornasse uma torturante penitência.

Com falta de paciência para resistir, fui-me embora comer uma sande. Na TV a senhora jornalista continuava a atropelar espectadores para chegar às figuras importantes da plateia e conseguir uma reacção sobre "o que é que acha sobre a direcção do partido não ter aprovado isto" , etc.

Depois veio uma entrevista com Miguel Urbano Rodrigues que fez valer a minha noite, ao ver a boca aberta da jornalista enquanto este octogenário com espinha a chocava repetidamente. O arquivo on-line da Sic Notícias é uma merda, por isso será difícil encontrá-la, mas garanto que valeria a pena vê-la. Interessante de verificar como o Poeta Alegre faz sempre aquele ar de extremamente indignado, de homem sério com séria prisão de ventre, enquanto enche a boca com o socialismo pouco depois de aprovar "privatizações encapotadas" junto ao seu partido, e como isto contrasta com o ar bonacheirão e bem disposto de Urbano Rodrigues, que dedicou a sua vida à luta pelo ideal, e no combate constante contra o sistema em que o Poeta alegremente participa e ajuda a construir (não obstante fazê-lo com ar de enfado).


Acerca do "encontro de esquerdas", de um potencial partido, da panaceia para deixar tudo mais ou menos como dantes, penso devia ter dado mais importância ao que disse Raoul Vaneigem, "a Esperança é a trela da submissão".

Ps.: A entrevista pode ser encontrada aqui. Graças ao Diogo, que a gravou e colocou na rede.

24 comentários:

samuel disse...

Que belo post!

Abraço

Diogo disse...

Caro Tárique tem aqui a entrevista completa do Miguel Urbano Rodrigues, gravado por mim e uploaded no Google video:

Miguel Urbano Rodrigues na SIC

Apareça para discutir o Holocausto judeu!

Stipouff disse...

Quase que papagueava o samuel. A cena é que me caí sempre mal é: "a quantidade de velhada que lá estava"

Abraços e beijitos

xatoo disse...

eu por acaso já falei algumas vezes com o MUR que é um tipo muito porreiro e com uma cultura extraordinária; Até quase ao final da entrevista, tudo bem; mas aquela de ter andado 400 quilómetros sem conseguir falar depois de sair de Auschwitz foi de me fazer rir até às lágrimas. Aquela charla do "sabão humano" é insuperável (faltou os abat-jour com pele de comunistas, mas isso compreende-se, o marketing soviético está em maré baixa).
Quando ele lançar o novo livro a ver se a gente combina e aparece para lhe perguntar qual o papel da URSS no tratamento museológico (manipulação do material) nos campos de concentração; e por quê, durante esses 30 anos a seguir a 1945 ninguém falava em "holocausto"

Filipe Abrantes disse...

Não posso deixar de simpatizar com este tipo de postas. Acho bem que se denuncie a fraude que é o socialismo rico dos ilustres que enchem as contas à custa das suas lutas (e sempre, como bem nota o tarique, com ar de enfado). O Manuel Alegre é uma completa fraude (quem costuma dizer sobre ele algumas verdades é o Miguel Abrantes, no Corporações, um blogger odiado por 90% da blogosfera, por muito boas razões: diz as verdades..).

Mal por mal prefiro o camarada dos criminosos das FARC. Sempre é mais genuíno.

Tárique disse...

Obrigado, Diogo!

xatoo,

Não tinha visto essa parte da entrevista. Tenho seguido com atenção os seus artigos e os do Diogo acerca da temática do holocausto.

stipouff: tem razão, vou alterá-lo.

filipe abrantes: li num artigo escrito por um paleo-con há uns tempos que a guerra mais duradoura do mundo é na colombia, onde os nativos combatem os invasores desde há 500 anos. é nesta perspectiva que vejo o conflito

Stipouff disse...

Tárique, põe Velhada outra vez!!
Eu não tenho nenhum problema com a palavra. Aliás, entre Cabelos Brancos ou Velhada, por mim até vai mais Velhada, é mais coerente com o "tom" do texto.
O que me fez espécie é a referência (que me parece) pejorativa relativamente à idade da assistência. Vivemos rodeados de apologias da juventude, como se esta fosse um valor per si, e a velhice um defeito per si. Acho esta situação bastante perniciosa, especialmente porque este tipo de discurso não está apenas circunscrito à publicidade e afins, mas está já bastante bastante entranhado no discurso político e nas práticas sociais. Mas como disse, fora isso, assino por baixo do teu sentimento relativo ao grande comício.

Filipe Abrantes disse...

Sobre a velhada:

Eu tenho a ideia de que quando existe verdadeiramente um grupo com ideias de revolução, esse só pode ser autêntico se for composto por activos e não por pessoas que já pouco podem esperar da vida que não a contemplação. Os velhos, na política, ou são privilegiados que se fidelizaram ao respectivo grupo político ou são idealistas irrecuperáveis. Ver um comício, pretensamente com ideias de mudança, cujas primeiras filas estão repletas de velhos é sintomático. De repente, vêem-me à ideia alguns movimentos genuinamente revolucionários: Ron Paul, LCR (extrema-esquerda, França), Égalité et Reconciliation (direita nationalista e socialista, França). Quando vejo o Manuel Alegre e os restantes beneficiários deste regime dando lições de moral, apetece vomitar.

Anónimo disse...

Começou bem, a entrevista de MUR, mas deixei de ouvir quando disse que a terra podia alimentar 12 mil milhões de pessoas (porquê 12 mil milhões?, o céu é o limite).

Espanta-me que alguém consciente da escassez de petróleo, não se aperceba de outros problemas como a erosão e o aumento da salinidade dos solos, a exaustão e contaminação de aquíferos, as alterações climáticas e as implicações que têm sobre a agricultura.
Ainda para mais sendo a agricultura moderna totalmente dependente de petróleo barato. A revolução verde basicamente foi transformar petróleo em alimentos.

Ninguém é capaz (ou não quer) de fazer a ligação óbvia, a origem de todos estes problemas é o excesso populacional causado pelo aproveitamento das vastas quantidades de energia acumulada nos combustíveis fósseis. Um acontecimento único e irrepetível.

Percebo que é um tópico tabu e creio que possivelmente não tem nenhuma solução razoável, se calhar, no grande esquema das coisas, nem vale a pena ser discutido.

Estes discursos parecem-me curtos e ideológicamente tendenciosos.
Fazem-me sempre lembrar este trecho:

«- The destruction of the natural world is not the result of global capitalism, industrialization, 'Western civilization' or any flaw in human institutions. It is a consequence of the evolutionary success of an exceptionally rapacious primate. Throughout all of history and prehistory, human advance has coincided with ecological devastation.»
John Gray, "Straw Dogs"

Peço desculpa pelo desabafo.
js

Tárique disse...

stipouff

Talvez não o tenha conseguido transmitir como queria, mas a crítica não era à "velhada" em si, mas daqueles que não estavam lá. Pensei que me teria feito entender e que seria apenas a palavra "velhada" que seria forte demais.

Parece-me que o Filipe Abrantes me compreendeu melhor: o grande problema de aquilo estar cheio de velhada não é dos que estão. É dos que não estão. É da ausência de gente mais nova. Nem sei bem o que significa, os únicos jovens que lá vi estavam a perguntar quando é que acabavam os discursos, porque queriam era ver Terrakota. Parece que em portugal o activismo político acabou depois da geração rasca. às vezes tenho vontade de concordar com o Luiz Pacheco "os jovens, puta que os pariu", mas não sei se isto diz mais da juventude dos dias de hoje ou da modernidade desta "esquerda moderna".

O mesmo fenómeno aconteceu quando há uns tempos fui a um jantar de homenagem aos valores de abril que, pelo que percebi, era também da mesma esquerda reformista (25 euros por bifinhos com cogumelos, chiça) . Haveria nesse jantar 3 ou 4 pessoas com menos de 50 anos.

mas está já bastante bastante entranhado no discurso político e nas práticas sociais.

tanto que a jornalista pita-tonta (vi-a à bocado a dançar de tutu na tv) enquanto esteve no espaço chiado só se dirigia aos poucos jovens (basicamente 3 ou 4 numa sala de 400 pessoas) para fazer o directo. Achei estranho estar a fazê-lo sendo que era óbvio que não eram ilustrativos da maioria, não tinham muito para dizer, e estariam ali principalmente para ver as bandas musicais mas supus que a jornalista achasse que ficavam melhor na câmara.


JS: concordo consigo. tome em atenção que eu não disse que subscrevia tudo o que disse MUR ou até a sua visão do mundo, mas sim que me deliciei a ver aquela entrevista que cheia daquilo que certa malta apelida de " politicamente incorrecto"

Quanto ao assunto em causa, eu acho que vale a pena ser discutido e digo-lhe que a minha alguma consciência dele é preponderante na minha posição política. Irrita-me sobremaneira por exemplo a ideia de uma economia mundial a crescer a 3% , ou a forma como, imitando as prioridades do princípio do século ,tantas filosofias políticas almejam a criar a sociedade mais produtiva. O crescimento da economia, tal como eu entendo (e posso estar a entender mal) implica o aumento da taxa de recolha e transformação de mais recursos. Eu acho que devíamos era estar todos a pensar como trabalhar 2 horas e ter menos filhos , gastar menos e usar menos, em suma, reduzir o ritmo de exploração e melhorar a qualidade de vida ao poupar e distribuir melhor as riquezas ...

Uma solução que existe (e que a mim me parece razoável) não parece ser do agrado nem dos progressistas nem dos conservadores ocidentais, é a promoção e distribuição gratuíta da pílula e outros sistemas de controlo de natalidade nos países subdesenvolvidos. Eu acho que se devia discutir esta hipótese a sério mas parece realmente ser tabu (para a "esquerda" porque lhe cheira a eugenia e para a direita porque ... sei lá , já nem me lembro porque é que a direita não gosta de planeamento familiar)

Outra ideia é de que a igualdade e educação leva a sociedades com menos filhos por casal e que se o sistema capitalista global não necessitasse de uma fonte constante de indigentes para fazer as suas engrenagens funcionar o problema já poderia estar a começar a ser resolvido.

Anónimo disse...

Pois, eu também acho que crescimento económico implica sempre utilização e transformação de mais recursos, os teóricos do crescimento infinito dizem que não é necessariamente assim, mas se olharmos para os factos, parece-me inequívoco que o crescimento económico tem uma relação directa com a utilização e destruição de cada vez mais recursos naturais.

Há pessoas que discutem estes problemas, mas são uma minoria entre as minorias e a dimensão do problema é assustadora. O que me faz ser pessimista.
Estes tipos do "Center for the Advacement of the Steady State Economy" têm boas ideias, mas lá está, é uma ideia minoritária e desprezada pela maioria.

http://www.steadystate.org/

Mas sem duvida que o caminho é gastar menos, consumir menos, ter menos filhos, mas isto vai contra o transe consensual do paradigma do crescimento infinito em que vivemos.

Também duvido que medidas de controlo de natalidade e planeamento familiar possam ser efectivas tendo em conta o respeito pelas liberdades individuais das pessoas. Só em estados totalitários e opressores é que estas medidas podem ter sucesso. Ou então, como diz, se houver um nível de educação e igualdade suficiente, o que só acontece numa pequena fracção da população actual.

Eu já estou como os realizadores deste boletim noticiário eco-anarquista que descobri há pouco tempo, "It's the End of the World as We know it, and i feel fine!", delicioso:

http://www.youtube.com/watch?v=yaiCZvbuXOs

Small is beautifull
Abr.
js

Stipouff disse...

Sobre a velhada:

Caro Tarique,
se o que te repulsa é a ausência de outras gerações, então tasse!

Caro Filipe,
Estou estupefacta, não sabia que havia uma lei natural que dita um papel contemplativo a pessoas a partir de uma certa idade, sendo que a todos os que saíam desse padrão apenas reste ou a depravação de valores ou a chonezisse ideológica. Gosto de pensar que não, aliás sei que não, conheço alguns casos.

E quanto a "esse (processo de revolução) só pode ser autêntico se for composto por activos e não por pessoas que já pouco podem esperar da vida" sempre pensei que estar ou não activo e esperar ou não algo da vida, eram decisões pessoais, a fazer em todas as alturas da vida e não imposições da mãe natureza...

Não percebo, mesmo.

Miguel Madeira disse...

"eu também acho que crescimento económico implica sempre utilização e transformação de mais recursos"

não é obrigatório.

Basicamente, podemos dizer que

produção=recursos*produtividade

logo, podemos aumentar a produção, ou consumindo mais recursos ou aumentando a produtividade.

Note-se que o consumo de matérias primas tem aumentado nas últimas décadas, mas a uma taxa menor que o crescimento da economia, o que quer dizer que, mesmo a uma taxa de crescimento económica positiva (mas, claro, menor que a actual) poder ter uma estabilização 8ou mesmo uma redução) do consumo de recursos.

E, já agora, um exemplo: o computador que cada um tem em cima da secretária faz muito mais coisas e utiliza muito menos material fisico do que o ENIAC.

Anónimo disse...

Não é obrigatório mas é o que acontece a médio/longo prazo, a teoria do crescimento económico infinito, pelo que percebo, assenta em dois factores, aumentos de eficiência e substituição de recursos.
Quanto aos aumentos de eficiência há um limite teórico ditado pelas leis da termodinâmica, a eficiência de 100% nunca será atingida, depois também há o paradoxo de Jevons, um aumento de eficiência resulta num aumento do consumo global de determinado recurso.

«o computador que cada um tem em cima da secretária faz muito mais coisas e utiliza muito menos material fisico do que o ENIAC.»

Mas o ENIAC era apenas um, os computadores de secretária são milhões e não duvido que consumam muito mais recursos que o ENIAC, um exemplo perfeito do paradoxo de Jevons.

Quanto há substituição de recursos penso que o melhor argumento é o de que a terra é finita e nem todos os recursos são iguais em quantidade e qualidade.

O petróleo, carvão e gás natural, por exemplo, foram uma espécie de lotaria geológica, milhões de anos de luz solar pré histórica acumulada, de fácil transporte e grande densidade energética e variedade de usos, provavelmente nunca teremos um lucro energético e económico semelhante com outro recurso.

js

Tárique disse...

Também duvido que medidas de controlo de natalidade e planeamento familiar possam ser efectivas tendo em conta o respeito pelas liberdades individuais das pessoas. Só em estados totalitários e opressores é que estas medidas podem ter sucesso.

eu penso que o acesso fácil e seguro a contraceptivos pode "empoderar" as mulheres e aumentar as "liberdades individuais". ou seja, pode ser um elemento de aumento de igualdade. de certa forma é como o acesso à educação (ou a sua obrigatoriedade), à partida poderia parecer limitar as liberdades mas na prática aumenta-as.



Mas concordo que analisando a "big picture", a história, os dados e tendências, é triste que por vezes a única coerência parece estar com o anarquismo verde pós-esquerdista do ... unabomber.

de qualquer forma é por isso que o blogue se chama "o nadir dos tempos".

Tárique disse...

Miguel, mas não é verdade que se aumentarmos a produtividade e mantivermos as horas de trabalho e a quantidade de trabalhadores aumentamos necessariamente a taxa de exploração de recursos?

(parece-me que há no meu raciocínio uma falha qualquer, já que, por exemplo, um mundo que lapida mais diamantes está a fazer crescer a economia se necessariamente extrair mais recursos, mas lapidar diamantes é inútil, não? tenho mesmo que ler mais sobre economia. não era o keynes que dizia que a economia crescia se tivessemos uma equipa a fazer buracos nas ruas e outra a tapá-los? um colega meu deita papéis para o chão para "criar emprego" ... a forma dele de pensar não parece estar longe da forma como "pensa" a mão invisível do mercado )

panúrgio disse...

acerca das velhadas necessariamente contemplativas deixo-vos aqui uma refutação da ideia

http://en.wikipedia.org/wiki/Raging_Grannies

panúrgio disse...

"logo, podemos aumentar a produção, ou consumindo mais recursos ou aumentando a produtividade."

sim, mas neste ponto podemos devolver a acusação de idealismo e utopismo ao capitalismo

Miguel Madeira disse...

“Miguel, mas não é verdade que se aumentarmos a produtividade e mantivermos as horas de trabalho e a quantidade de trabalhadores aumentamos necessariamente a taxa de exploração de recursos?”

Talvez me tenha explicado mal – quando falava em aumentar a produtividade, não me referia à produtividade do trabalho; referia-me à produtividade do recurso; ou seja, não me referia a passarmos a produzir mais com uma hora de trabalha, mas em produzir mais com um barril de petróleo, ou com um quilo de ferro…

“não era o keynes que dizia que a economia crescia se tivessemos uma equipa a fazer buracos nas ruas e outra a tapá-los?”

Só se a economia estiver em recessão

[mudando de assunto, tive uma trabalheira para distinguir os gatos dos cães]

Filipe Abrantes disse...

"acerca das velhadas necessariamente contemplativas deixo-vos aqui uma refutação da ideia"

Tudo bem, afinal quem tem mais interesse em mudar a realidade são os mais velhos.. É mesmo isso que quis dizer?

Tárique disse...

[acerca do off-topic] Pergunto-me se os sistemas convencionais anti-bots seriam insuficientes ou se aquilo é só para irritar.

miguel disse...

Só uma coisa, Keynes não afirmava que escavar e tapar buracos era bom.
Isso é uma caricatura das suas ideias sobre o consumo público

panúrgio disse...

"Tudo bem, afinal quem tem mais interesse em mudar a realidade são os mais velhos.. É mesmo isso que quis dizer?"

não foi isso que disse. discordei da ideia que @s mais velh@s não podem ter um papel importante em qualquer vontade de mudança.

Anónimo disse...

Ver a entrevista também aqui:
http://sic.aeiou.pt/online/scripts/2007/videopopup2008.aspx?videoId=%7BB33D02C9-633E-4914-B523-CBFC3B34DACD%7D