sexta-feira, 23 de maio de 2008

Pirataria (4) - Instituto Superior Técnico

A papelaria Leo, no Largo do Leão, Praça do Chile, Lisboa, devia ser agraciada como instituição de utilidade pública nacional. Todos os anos fornecem livros (ilegalmente) fotocopiados aos milhares de estudantes de engenharia do Instituto Superior Técnico.

Por vezes, confrontados com os preços exorbitantes da bibliografia oficial de uma cadeira ou com o facto desta pura e simplesmente não se encontrar à venda nem disponível nas bibliotecas, os professores sorriam e perguntavam: "então não conhece a papelaria dos indianos?". E tinham razão: certas encadernações que lá comprava eram exclusivas.

Duvido que haja sequer um engenheiro formado do IST que não tenha pelo menos meia dúzia de encadernações deles - seria inconcebível que cada aluno gastasse os milhares de euros da bibliografia dos cursos.

É enorme a contribuição dos piratas indianos para o avanço técnico-científico da nação.

9 comentários:

miguel disse...

Isso ainda existe?
E salvo o erro, só tenho um livro de lá.

Tárique disse...

A versão inicial do post tinha "pelo menos 1 livro de lá". Depois mudei para "pelo menos meia dúzia" porque ficava melhor no texto.

Se não é indiscrição perguntar: como fizeste para arranjar os outros livros?

Wyrm disse...

Sou mesmo estúpido eu...
Quando penso nas brocas que não fumei nem nos copos que não bebi quando decidi poupar para comprar as edições legitimas do Calculus, por exemplo, ao invés de ir aos indianos (todas as universidades têm os seus)...
Espera! Sem dúvida que todas aquelas editoras de livros científicos são multinacionais que espezinham as pequenas editoras de livros científicos logo, tal Robin dos Bosques, não merecem ver um tostão pelos livros que editam.

Até breve, começo a gostar de para aqui, apesar de uma azia que algumas das ideias me provocam. :)

Wyrm disse...

trollism da praxe:

Volto a repetir que pelo menos aqui tens educação, ao contrário de certos posts no Arrastão.

miguel disse...

Não é indiscrição nenhuma. Descontando um que era caro (e mesmo necessário) que comprei, os baratuxos da Gulbenkian, o resto só estudava pelas aulas teóricas...

Se fosse hoje talvez fosse ao emule..

Tárique disse...

wyrn:

o que está em causa neste post não é a tua escala de valores morais nem o teu comportamento certamente idóneo à luz da tua própria moral.

O que tentei ilustrar foi que a sociedade e a economia GANHAM com a existência da papelaria Leo e os seus negócios. por isso, mais ou menos admitidamente, convém ao IST que ela continue a existir.

o preço da bibliografia do quarto ano de engenharia aeroespacial é igual a 6 meses de renda de um quarto na residência duarte pacheco. Eu sei que os livros de análise são baratos (até há versões "creative commons"), mas quando procuras coisas mais específicas (matérias de 4º, 5º ano) os preços já sobem para os 150, 200 euros.


Miguel:

muitos dos apontamentos das aulas teóricas a partir do 3º ano, pelo menos do curso que tirei, são TRADUÇÕES de cursos de outras universidades, ou de livros de referência sobre a matéria. Lembro-me da minha cadeira de mecânica dos fluídos, por exemplo. São igualmente ilegais à luz das leis de copyright :)

Filipe Moura disse...

Estás desactualizado, meu caro. Hoje em dia saca-se tudo do Emule... (Excepto os livros do Magalhães.) Nem sei se essa papelaria ainda existe (no "meu tempo" era a Copitécnica, que passou depois a Copitraje). Eu prefiro o emule a "papelarias" dessas.

Wyrm, referes-te ao Calculus do Apostol? Grande, grande livro. Também o comprei. E a muitos outros.

Por que será que em Portugal os livros pirateados são estrangeiros?

O Tárique é provocador às vezes, mas nunca o vi ser mal educado.

Tárique disse...

Grande livro, sim senhor

Não penso que a copitécnica tenha alguma vez tido um catálogo tão extenso como tinha a Leo.

A gente chegava lá e "queria um livro de aerodinâmica supersónica" e lá vinham eles com o catálogo "qual é que quer?"

O ridículo aqui é que, tendo em conta a economia de escala, diluição dos custos de concepção com o tempo, etc. , as editoras podiam vender os livros MAIS BARATO do que a Leo vendia. Ou pelo menos a um preço razoável. Teriam mais lucro (porque mais clientes), causariam menos custo à sociedade (que tem que andar a pagar ordenados a asae's).
Mas o sistema capitalista tem uma grande inércia, essa é que é essa.

quanto às minhas maneiras, devo confessar que quando se trata de violação dos direitos humanos, por vezes profiro uns impropérios. no arrastão lembro-me de se ter passado uma vez, quando chamei bárbaros a comentadores que defendiam a tortura extra-judicial de detidos por parte da polícia.

Wyrm disse...

O teu post no Arrastão não chamou "apenas" bárbaros aos restantes comentadores.
De resto tratava-se de um video que mostrava meliantes a serem detidos pela polícia no seguimento de uma perseguição automóvel.
Foram duros? Foram sim. Agrediram os suspeitos a soco e a pontapé até estes pararem de se debater e as algemas serem colocadas. Foi demais? Talvez, só quem lá esteve é que poderá avaliar isso. Mas chamar aquilo "tortura extra-judicial" é simplesmente reflexo condicionado.
Qualquer dúvida, compare-se com o video do espancamento do Rodney
King. É a minha opinião a respeito do assunto, e ser rotulado de "nojento anti-democrata" por isso não me parece ser justo.
De resto para o Tarique "extra judicial" é bom. Basta ver a posição sobre a propriedade intelectual que, pasme-se, até é protegida por lei.
É essa aplicação selectiva da lei que me causa certa azia.
E sim, é esse mesmo Calculus. Apesar de nunca mais ter trabalhado na area da Matemática (se é isso possivel) ainda hoje leio um ou outro capitulo apenas pela elegância das exposições.