segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mais Meia Hora de elogios à barbárie

"[...]ao contrário dos russos, os chineses ainda não se podem dar ao luxo de fomentar eleições[...]. Convenhamos que não deve ser fácil agora, oferecer uma caneta e um boletim de votos a cada um do bilião [sic] e tal de chineses, a maioria dos quais analfabetos nos vários sentidos da palavra. Aceita-se portanto que os dirigentes chineses procurem que isso não aconteça. [...] O Presidente Hu Jintao é um bom homem, inteligente, capaz de ver para além dos muros da cidade proibida. [...]"

Sérgio Coimbra, director do diário gratuito Meia Hora, opinião editorial 22/10/2007, exactamente uma semana depois desta.

Ps.: A semana passada, Sérgio Coimbra desculpabilizou a brutal ditadura franquista por "ter livrado a cultura espanhola de ser reescrita pelo socialismo". Desta feita, é aceite o terrível regime socialista chinês porque afinal este implodiria se não fosse a repressão.

PPs.: O argumento de que os chineses não merecem a democracia porque são analfabetos e não sabem no que estão a votar está, lamentavelmente, na mesma linha que este:


[não deve haver] referendo sobre o Tratado Europeu porque essa política não está ao alcance da população, [...] apenas dois por centro da população percebe o processo de decisão política na Europa!


e este

Referendar o Tratado é matá-lo. Alguém acredita que o cidadão iria dedicar-se ao estudo minucioso do Tratado, ponderar as consequências e as vantagens, reflectir sobre as múltiplas questões envolvidas? E que, após o amadurecimento da questão, não se decidiria simplesmente pelo "Não" como voto de protesto contra o encerramento da maternidade da sua terra ou o aumento salarial para 2008?


... parecendo assumir que é ilegítimo votar baseando-se nas condições práticas, nas consequências sentidas na péle das políticas.

3 comentários:

filinto disse...

Faltava o argumento da quantidade: são muitos milhões, fica muito caro. Safa!

Nelson Peralta disse...

Felizmente nunca apanhei esse Meia Hora, são as vantagens de viver numa cidade média!

Tárique disse...

Fica um esclarecimento: o Meia Hora é um gratuito do grupo Cofina (correio da manhã) com tiragem de 100 000 exemplares. É distribuído apenas nas zonas ditas "de negócios" e tem uma densidade de notícias/publicidade bastante maior que outros. O público alvo é aquele que os vermes de marketing chamam grupo A, que entendo que seja gente com bastante pasta. Infelizmente, estou convencido que os editoriais deste jornal e do Oje (outro gratuíto apenas distribuído a gente rica), apesar de só terem influência sobre 1% da população, são muito mais importantes a moldar tendências políticas do que outros mais abrangentes.